Cicatrizes da Alma: quando as feridas do passado ainda doem

“Farei cicatrizar o seu ferimento e curarei as suas feridas”, declara o Senhor, “porque a você, Sião, chamam de rejeitada, aquela por quem ninguém se importa.”
Jeremias 30:17

Algumas cicatrizes são visíveis. Outras têm até histórias engraçadas.

No meu joelho, tenho um risco que, sempre que vejo, me lembra do dia em que inventei de carregar minha prima na garupa da bicicleta. Resultado: um risco que ia do joelho até o pescoço.

No meu pé, tenho uma pequena cicatriz que me lembra de uma viagem para Maceió, quando, em um passeio de jangada com minha filha, quase morremos afogadas e me cortei nos corais.

Na minha barriga, tenho as marcas de uma cirurgia que fiz para retirar duas hérnias e a vesícula.

Em nenhuma delas sinto dor. Mas elas continuam ali. E, de vez em quando, quando olho para elas, lembro das histórias que carregam.

Essas minhas cicatrizes, apesar de tudo, não me causam mais dor ou desconforto.

Mas existem outras cicatrizes.

Essas não são visíveis. Ninguém consegue enxergá-las simplesmente olhando para nós.

São marcas que, quando lembradas, às vezes ainda causam dor. Trazem desconforto, angústia, medo ou lembranças que gostaríamos de esquecer.

São cicatrizes da alma.

Cicatrizes causadas por um passado de frustração, rejeição e abandono. Feridas que podem nos deixar paradas à beira do caminho, sem conseguir seguir em frente, mas também sem conseguir voltar.

O cego de Jericó

Bartimeu tinha uma história.

Apesar de ser conhecido por sua condição, ele tinha nome, tinha família, tinha uma origem.

Bartimeu, filho de Timeu, de Jericó.

Toda pessoa ferida carrega uma história.

Por trás de uma cicatriz existe alguma coisa que aconteceu. Uma perda. Uma rejeição. Uma decepção. Uma palavra. Uma experiência que deixou uma marca.

Bartimeu também carregava as marcas de sua própria história.

Uma vida à margem

Bartimeu estava à beira do caminho.

Ele vivia às margens da sociedade. Dependia daquilo que recebia dos outros e ocupava um lugar de exclusão.

A beira do caminho pode ser um lugar solitário.

E existem momentos em que as feridas da alma também nos levam para esse lugar. Nós nos afastamos, nos fechamos e começamos a acreditar que precisamos enfrentar tudo sozinhas.

Mas Jesus não nos chama para uma vida solitária. Ele nos chama para relacionamento, comunhão e proximidade com Ele.

Desde o princípio, Deus busca um relacionamento comigo e com você.

Ele não vê, mas ouve

Bartimeu não podia ver Jesus se aproximando.

Mas ele ouviu.

E, quando ouviu que Jesus de Nazaré estava passando, decidiu usar aquilo que ainda tinha: sua voz.

Ele gritou.

Mas não gritou qualquer coisa:

“Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”

Bartimeu sabia quem Jesus era.

Mesmo sem enxergar o caminho, reconheceu quem estava passando por ele.

Ele viu o que a maioria que enxergava não enxergava.

E isso nos leva a uma pergunta:

Que voz você tem ouvido e seguido?

Vivemos cercadas de vozes. Pessoas dizendo quem devemos ser, o que devemos fazer, quanto valemos e até quem somos.

Mas, no meio de tantas vozes, precisamos aprender a reconhecer a voz de Jesus.

Quando tentam calar a sua voz

A Bíblia diz:

“E muitos o repreendiam para que se calasse.”

Tentaram fazer Bartimeu se calar.

E talvez, em algum momento, também tenham tentado calar você.

Quem tem te calado?

Talvez sejam as palavras que disseram sobre você. Ou talvez sejam aquelas que, depois de ouvir tantas vezes, você mesma começou a repetir para si:

A doente. A mal-amada. A largada. A traída. A que tem um filho envolvido com drogas. A desempregada. A abandonada. A fraca. A depressiva. A solitária.

Mas por trás de cada uma dessas palavras existe uma mulher e existe uma história.

Existe a dor de quem foi traída por alguém em quem confiava.
A dor de quem foi abandonada quando mais precisava.
A dor de uma mãe que olha para um filho e se pergunta onde errou.
A dor de quem perdeu alguém e precisou aprender a viver com uma ausência que ninguém consegue preencher.
A dor de quem dedicou anos da vida à família e, de repente, percebe que os filhos cresceram, a casa ficou silenciosa e ela já não sabe qual é o seu lugar.
A dor de quem enfrenta uma doença e sente medo do que ainda está por vir.
A dor de quem perdeu o emprego e, junto com ele, parece ter perdido também parte da sua segurança.
A dor de olhar para a própria vida e perceber que alguns sonhos ficaram pelo caminho.

E existem ainda aquelas dores que quase ninguém conhece.

As que escondemos atrás de um “está tudo bem”.
As que não contamos porque temos vergonha.
As que aprendemos a carregar em silêncio porque acreditamos que ninguém entenderia.

Com o tempo, existe o risco de começarmos a acreditar que somos aquilo que nos aconteceu.

Mas você não é a sua rejeição.
Você não é o seu abandono.
Você não é a sua perda.
Você não é o seu diagnóstico.
Você não é o erro que cometeu.
Você não é aquilo que fizeram com você.

Suas feridas fazem parte da sua história, mas não precisam definir quem você é.

Suas cicatrizes mostram por onde você passou, mas não determinam para onde você vai.

E Bartimeu nos mostra algo importante: mesmo sentado à beira do caminho, ele não deixou que a condição em que vivia o impedisse de reconhecer Jesus quando Ele passou.

Talvez hoje exista uma ferida na sua alma que esteja te paralisando e te deixando sentada à beira do caminho.

Exponha sua cicatriz para Jesus.

Exponha sua dor para Ele.

Exponha sua fraqueza.

Mostre a Jesus aquilo que ainda dói.

Basta uma palavra e uma atitude

Então algo acontece:

Jesus para.

“Parou Jesus e disse: Chamai-o. Chamaram, então, o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama.”

Imagine aquele momento.

No meio da multidão, Jesus ouviu a voz de Bartimeu.

E parou.

Jesus para.
Jesus te espera.
Jesus espera por você.
Jesus te chama.

Lançando a capa

“Lançando de si a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.”

A capa representava toda sua doença, era o documento oficial do governo Romano que autorizava a mendigar! Largar a capa significava e simbolizava a sua situação perante a sociedade. Significava proteção.

Sua ferida não te protege!

Ele não só jogou fora aquilo que o definia, como lançou-se a Jesus.

Bartimeu largou sua capa quando recebeu uma Palavra.

Basta uma palavra e Jesus muda a sua história.

E, quando Ele te chama, mesmo que você não esteja no caminho, mesmo que não saiba o caminho, ao ouvir Sua voz você pode se encontrar com Ele.

Talvez você esteja há tanto tempo à beira do caminho que já tenha se acostumado com aquele lugar.

Talvez a dor tenha feito você acreditar que não consegue mais se levantar. Que algumas coisas não vão mudar. Que já passou o seu tempo. Que aquilo que aconteceu no passado decidiu como será o restante da sua história.

Mas Bartimeu ouviu uma palavra:

“Levanta-te, Ele te chama.”

Jesus não perguntou há quanto tempo ele estava ali. Não perguntou quantas vezes ele havia tentado antes. Não perguntou o que as pessoas diziam a seu respeito.

Jesus o chamou.

E o chamado exigiu uma resposta.

Bartimeu poderia ter permanecido sentado. Poderia ter pensado que não conseguiria chegar até Jesus porque não enxergava o caminho. Poderia ter permitido que o medo, as vozes da multidão ou a sua própria condição o mantivessem no mesmo lugar.

Mas ele se levantou.

Talvez seja exatamente isso que você precise ouvir hoje:

Levante-se. Ele te chama.

Você pode não enxergar tudo o que está à sua frente. Pode não saber como algumas situações serão resolvidas. Pode ainda carregar perguntas sem respostas e cicatrizes de coisas que gostaria que nunca tivessem acontecido.

Mas você não precisa conhecer todo o caminho para responder ao chamado de Jesus.

Bartimeu não enxergava o caminho. Ele só precisava saber quem o estava chamando.

E talvez a mudança da sua história também comece assim: não quando todas as respostas chegarem, não quando todas as dores desaparecerem, mas quando, mesmo ferida, você decidir se levantar e caminhar em direção a Jesus.

Ânimo! Levante-se! Ele está te chamando!

Talvez você também carregue cicatrizes.

Algumas ninguém vê.

Talvez existam marcas de rejeição, abandono, perdas ou frustrações que ainda doem quando são tocadas.

Você não precisa esconder essas feridas de Jesus.

Leve-as até Ele.

Porque uma cicatriz pode continuar fazendo parte da sua história sem continuar determinando o seu futuro.

“Ele cura os que têm o coração partido e trata dos seus ferimentos.”
Salmo 147:3

Vamos orar?

Senhor,

Tu conheces a minha história. Conheces as feridas que todos podem ver e também aquelas que escondo no mais profundo do meu coração.

Tu sabes o que me machucou, as palavras que ouvi, as perdas que vivi, as rejeições que enfrentei e todas as vezes em que permaneci à beira do caminho sem forças para continuar.

Hoje eu não quero mais permitir que as minhas feridas definam quem eu sou.

Assim como Bartimeu ouviu a Tua voz e se levantou, ajuda-me a reconhecer quando estás me chamando. Mesmo que eu não consiga enxergar o caminho à minha frente, quero confiar em quem me chama.

Cura, Senhor, aquilo que ainda dói em mim. Toca nas lembranças que ainda me ferem, nos medos que me paralisam e nas marcas que carrego em silêncio.

Dá-me coragem para me levantar, deixar para trás aquilo que tem me prendido e caminhar em Tua direção.

Que as minhas cicatrizes não sejam mais motivo para permanecer à beira do caminho, mas marcas de uma história que passou pelas Tuas mãos.

Eu entrego a Ti minhas dores, minhas fraquezas, meu passado e aquilo que ainda não consigo compreender.

Eu ouvi a Tua voz. Dá-me coragem para me levantar.

Em nome de Jesus,
amém.


Que a Palavra de Deus seja a lamparina que ilumina seus próximos passos, mesmo quando você ainda não consegue enxergar todo o caminho.

Minha Lamparina
Fé, sabedoria e propósito para cada nova fase.

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